quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Fé cristã e ecologia: a necessidade de uma atuação pela sustentabilidade


Em princípio e toscamente, alguém poderia pensar: “O que tem o cristianismo a ver com a sustentabilidade da vida neste planeta se o que lhe interessa é a coisa eterna e o novo mundo que há de vir no desenrolar escatológico?”


Um minuto mais de reflexão e lembraremos que o desenrolar escatológico, ainda que anunciado por vezes como iminente, encontra-se em um momento desconhecido (e fatalmente condenado a ser desconhecido). É já. Mas o já não é já determinável. É logo ali. Mas pode ser logo ali de mineiro.


Daí, percebemos que a vida neste planeta pode perdurar ou não durante mais anos ou séculos, mesmo que tenhamos fé viva no Eterno. Ainda assim, alguém poderia desprezar a matéria e atentar somente para o espírito e a proclamação do Evangelho. Afinal, não é esta a tarefa fundamental da Igreja? Sim. Mas para que um discurso seja ouvido, é preciso que haja ouvido para ouvi-lo. E é preciso que haja consciência humana além do ouvido. E é preciso que haja vida. É preciso que haja paz. E a paz é possível somente quando há condições mínimas de existência humana digna.


Aí entra a conversa que proponho. Se, no presente, o amor pelo semelhante se manifesta inclusive em justiça nas relações econômicas e sociais, no horizonte do que há de vir, manifesta-se no cuidado com o planeta legado. Certamente, é difícil para o ser humano a prática do amor para com o próximo. Ainda mais para com um próximo ainda inexistente, mas potencialmente existente em um tempo futuro! Cuidar do planeta é cuidar do ambiente que receberá o próximo que há de vir (ou que se espera que virá, mas não virá, dependendo do quando dos eventos finais). A conclusão disso é a seguinte: o peso do seu lixo é proporcional ao volume de seu amor para com o próximo potencialmente existente. Sim. Se seu lixo é pesado, significa que você separa os recicláveis. Lixo orgânico pesa mais.


Para descomplicar as coisas, encaminho a segunda metade do texto nos seguintes termos: Os cristãos podem e devem incluir em sua agenda a construção urgente de um modo de vida sustentável. A Bíblia dá mostras de que nossa fé interfere em toda nossa vida. Os conselhos de Paulo envolvem uma ética que vai do âmbito familiar ao profissional. Decerto, hoje, com as urgências atuais, nossa ética cristã deve incluir a dimensão ambiental, pois, diferente de alguns dos primeiros cristãos, aprendemos a suspeitar da iminência da segunda vinda de Cristo, mas sem deixar de atentar para a possibilidade de que tarde um pouco mais, que a paciência do Eterno se prolongue por algum tempo desconhecido.


A lógica capitalista sofre para acolher, na marra, a noção de sustentabilidade ambiental, pois o seu interesse é imediato e egoísta. O cristão, mesmo o cristão mais envolvido nos porões do capitalismo, deveria amar o próximo (e também o que vem próximo no tempo) como a si mesmo e ocupar-se com o cuidado dele. O cristão deveria ser sensibilizado pelo amor que nele está derramado pelo Espírito Santo, de modo a compreender o valor das pequenas mudanças. Ao contrário, o que vemos são reclamações e críticas contra as mobilizações favoráveis à preservação do ambiente. Se algo interfere no conforto costumeiro, o cristão, como todos os outros, reclama, não pensando no outro que há de vir. Mas se a novidade tecnológica agrada, ele não pensa duas vezes, não reflete um minuto sequer no estrago que pode fazer, no resíduo deixado. O resíduo é o legado que deixamos aos que estão por vir a ser?


Isso do lixo eu digo com respeito ao comportamento do cristão individualmente. E como comunidades? Estamos manifestando algum interesse pelo legado ambiental que deixaremos aos futuros próximos? Nossas igrejas dizem algo a respeito das questões ambientais locais, nacionais ou mundiais? Deixaremos o testemunho de pessoas que tentaram preservar a possibilidade de vida melhor?


A sustentabilidade da vida em condições ambientais adequadas não é preocupação contrária ou alheia à agenda cristã. Ao contrário, percebo uma bela oportunidade de testemunhar o amor a partir de ações atentas para as questões ecológicas que estão em voga. Construir um pensamento diferente sobre a vida, um estilo de ser livre do consumismo crescente, uma reflexão sobre a existência temporal de forma menos egoísta. Tudo isso é tarefa dos cristãos também.


O problema é que muitos cristãos estão sendo engolidos pela mediocridade da vida irrefletida. Já não estão conscientes de que o tempo passa rápido, de que a vida humana é como a de uma flor, que logo murcha. Já não percebem a vida, enquanto oportunidade de gesto de amor (de reconhecimento do amor divino e retribuição por meio do amor ao próximo), que deixa de acontecer enquanto eles só querem esbanjar própria vida, enquanto prática de ser egoísta. E outros tantos cristãos, mas menos tantos que os primeiros, estão vivendo uma fé de alma somente, como se o corpo não participasse da existência respaldada por Deus, o qual, é bom que não se esqueça, é o criador, tanto das coisas visíveis quanto das invisíveis.


Bem, e como a flor e a vida humana, murcha o texto também. Não o fiz sustentável a longo prazo. É precário e termina somente como um convite à reflexão. É possível viver diferente? É possível evitar o mal do mundo físico e, ao mesmo tempo, exercitar valores espirituais básicos da fé cristã? Eu julgo que sim. Eu acredito em vida após a tolice consumista.


Um abraço,


Cesar

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Belo Horizonte (CNF) - Passárgada (PGD), poltronas 14A e 14B



Olho para a moça no guichê e digo rápido:
- Quero duas passagens no próximo voo direto para Passárgada, poltronas 14A e 14B, por favor!
- Não tem voo para esse lugar em nossa companhia, senhor.
- Você sabe se tem em outra?
- Nunca ouvi falar, sinceramente.
- Tudo bem... Então me veja os horários de voos para Xangri-lá ou Macondo.
- Senhor, o senhor quer que eu chame o serviço de saúde do aeroporto? Acho que o senhor não se encontra bem.
- Por que você diz isso?
- Bem, senhor, é que esses lugares não existem? Receio que o senhor não esteja em perfeito juízo.
- Olha aqui, moça, quem não está em perfeito juízo é esta cidade daqui. As pessoas não respeitam as mais elementaries normas de convivência, trânsito, civilidade, limpeza etc, e você vem me dizer que estou sem juízo por querer sair daqui? E, no meio desse caos de asfalto perfumado com enxofre dos infernos ou dos ônibus, um vereador gasta mais de sessenta mil comprando coxinhas da madrasta, o prefeito mais de oitocentos mil em voos fretados, e eu não posso gastar uns míseros reais em uma fuga desorientada para qualquer lugar menos contaminado por essa realidade putrefata?
- Não é isso, senhor, o problema é que a fila está grande e o senhor me pedindo passagens para lugares imaginários.
- Quanta incompetência... Bom... Desculpe, moça, não vou mais te incomodar. O mais importante é que eu consiga sair daqui logo. Não precisa ser voo direto. Me vende aí duas passagens para Passárgada com quantas conexões forem necessárias. Poltronas 14A e 14B, por favor!



Cesar

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

"Por que gastam dinheiro no que não é pão?" - respeitosa desleitura

Por que gastam dinheiro naquilo que não é pão?

Por que gastam dinheiro naquilo que não é pão?

Por que
gastam dinheiro
naquilo
que não é pão?

Gastam dinheiro
naquilo
porque
não é pão

Afinal, pão quase todo mundo tem. E o que eles querem é justamente ter o que quase todo mundo não tem. Para parecer que não fazem parte do "quase todo mundo". E para aparecer fazendo parte do que não é pra "quase todo mundo". Por isso, o cartaz diz: "exclusividade!". Eis a lógica que escraviza o ser humano e destroi o planeta. E todos permanecem no raso, superficiais como casca de ameixa brasileira. E nem enrugar querem mais. Mas morrem.

E o mais interessante é lembrar que o verdedeiramente exclusivo abandonou sua exclusividade e se fez um em meio aos que são como "quase todo mundo". Ele se misturou com os pobres, comeu com eles, andou com eles. Não habitou em palácios exclusivos. Não se banhou em banhos exclusivos. Não viajou em carruagens exclusivas. Deus se fez humano. E não um humano abastado. Deus se fez um em meio ao povão.
Se o Filho te libertar,
Liberdade!

Respire.
 
Prove.

Pão do Céu. Esquecido e desprezado, trocado por industrializados biscoitos indigestos nestes tristes dias.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O QUE É O EVANGELHO, AFINAL? Um trecho de "Lei e Evangelho" de C. F. W. Walther

Prezados leitores,
Esse texto é desconhecido para a maioria dos evangélicos. Mas trata de algo que, hoje, eu julgo de fundamental importância para a compreensão do Cristianismo como religião diferente do Judaísmo. Ele entende a especificidade do Evangelho e da Lei, definindo e não confundindo as coisas. O Evangelho a que se refere não é um tipo de texto. Também, não é a Palavra de Deus como um todo. E é bom não deixar as coisas misturadas. Pois, às vezes, atribuímos ao Evangelho (que é a mensagem do perdão pelo sacrifício de Cristo) algo que não lhe concerne. Leia, e pense.
Abraço, Cesar.


Estes sentimentos que se requerem podem, entretanto, ter uma origem bem diversa da que eles imaginam. É possível que, ao invés do testemunho do Espírito Santo, seja um efeito físico resultante da vigorosa mensagem do pregador. Isto explica porque muitas pessoas das mais bem intencionadas, que se tornam crentes, em determinado momento sentem que tem o Senhor Jesus, e logo depois sentem que o perderam novamente; em determinado momento imaginam que estão na graça, e em seguida afirma que decaíram da graça.

Esta prática errônea é resultante de três terríveis equívocos:

Primeiro: As seitas não crêem nem ensinam a verdadeira e completa reconciliação entre Deus e o homem. Isto porque julgam que nosso Pai celeste é um Deus extremamente rigoroso, que precisa ser comovido através de gritos e lágrimas ardentes. Isto implica em negar o mérito de Jesus Cristo, que há muito tempo reconciliou o mundo com Deus, fazendo com que Deus agora tenha uma disposição favorável para com os homens. Deus não deixa nada pela metade, inacabado. Em Cristo, Ele ama a todos os pecadores indistintamente. Os pecados de todos os pecadores foram cancelados. Toda a dívida foi paga. Não há nada que o pobre pecador tenha a temer quando se aproxima de seu Pai celeste, com o qual está reconciliado por causa de Cristo.
Entretanto, os homens imaginam que, depois que Cristo fez a sua parte, cumpre igualmente a nós realizar nossa parcela. Julgam que o esforço conjugado de Cristo e do homem é que efetua a reconciliação. Para as seitas, reconciliação é isto: o Salvador fez com que Deus se mostrasse disposto a salvar os homens, desde que estes, por sua vez, se demonstrem dispostos em serem reconciliados. Este, contudo, é um anti-evangelho. Deus está reconciliado! Por isso Paulo roga que nos reconciliemos com Deus (2Co 5.20). Isto equivale a dizer: Deus está reconciliado com vocês por causa de Jesus Cristo! Por isso agarrem-se à mão que o Pai celeste está estendendo. Além disto o Apóstolo declara: “Um morreu por todos, logo todos morreram” (2Co 5.14). Isto vem a significar: Cristo morreu pelos pecados de todos os homens; logo, a morte de Cristo é como se todos os homens tivessem morrido em pagamento do resgate de seus pecados. Por isto, da parte do homem nada se requer com vistas à reconciliação; Deus já está reconciliado. A justificação já é uma realidade não cabe ao homem tratar de consegui-la. Toda tentativa do homem, neste sentido, é um crime horrendo, uma luta contra a graça, contra a reconciliação e a prefeita redenção do Filho de Deus.

Segundo: As seitas erram na doutrina do evangelho. Consideram o evangelho uma mera instrução que mostra ao homem o que deve fazer para que receba a graça de Deus. Isto está errado; o evangelho não é outra coisa senão a mensagem de Deus ao homem, que diz: “Vocês foram redimidos de seus pecados; vocês estão reconciliados com Deus; seus pecados estão perdoados”.

Terceiro: As seitas erram no que ensinam a respeito da fé. Consideram-na uma qualidade dentro do homem, que tem por objetivo aperfeiçoar este homem. E pelo fato de a fé aperfeiçoar, melhorar o homem é que eles a julgam tão importante e salutar.
É evidente e não se pode negar que a fé genuína transforma o homem completamente. A fé faz com que o amor inunde o coração do homem. Onde há fogo, há calor; do mesmo modo, onde existe fé, é inevitável que haja amor. Todavia não é este aspecto da fé que nos justifica, que nos dá o que Cristo já adquiriu para nós e que portanto já é nosso, desde que seja aceito. Para a pergunta: “Que devo fazer para que seja salvo?” a Escritura tem a seguinte resposta: “Você deve crer; não resta nada que você mesmo possa fazer”. Foi assim que o Apóstolo respondeu a esta pergunta. O que ele disse ao carcereiro na realidade foi isto: “Nada lhe resta a fazer senão aceitar o que Deus fez por você; e você vai recebê-lo e será uma pessoa feliz”.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

lendo o livro do Alberto Couto Filho (Parte I)


Chegou-me por correio. Abri a embalagem e lá estava a capa já conhecida pelo blog do amigo Alberto. O título: "Vinde Após Mim" Jesus não disse: IDE Após Seus Líderes. Primeira folheada e... Bem, em princípio, fiquei meio ressabiado. Será boa leitura para mim? O que primeiro me preocupou foi o fato de que não lidero nem as formigas que cá andam. Não é um livro para líderes? Depois, me preocupou a diferença da tradição. Na bibliografia, reina a CPAD. O responsável pelo texto da contra-capa é diácono da A.D.. Os termos usados aqui e acolá também revelam um linguajar diferente para referir-se às coisas da igreja. Tá bom, mas o Alberto é amigo. Assim que tiver tempo eu leio - pensei.

Não tive tempo de sobra, mas encontrei momento para desbravar parte da obra. Terminei o segundo capítulo há poucos minutos. Eu estava errado. O livro é interessante para mim sim! Os dois motivos principais:

1) Gosto muito do estilo de escrita do Alberto. Ele poderia estar falando de navegação em alto mar que eu me interessaria.
2) O livro não serve só para líderes. Eu, que nada tenho com isso, fui rememorando experiências vividas por mim ou por pessoas próximas enquanto lia. Já passei por várias igrejas ao longo de toda a vida (embora tenha sido membro só de duas, a atual e mais uma, na qual fiquei por uns sete anos). Enfim, está sendo interessante reconhecer que, mesmo nas diferenças, as diversas igrejas compartilham de problemas semelhantes. Lembrei de situações desagradáveis, de erros dos outros e meus, ao ler o relato de problemas reais ocasionados por deficiências na liderança de igrejas. Claro, também lembrei de boas coisas, lendo os relatos de êxito.

Pois bem, voltarei a falar sobre o livro, mas já posso recomendá-lo a você. É só entrar no blog do Alberto para saber como adquiri-lo.  www.albertocoutofilho.blogspot.com

Mais um comentário. É claro que, ao ler, você começa a pensar também na sua própria comunidade. Na minha as relações de liderança são bem complexas, mais do que na maioria, talvez. Isso porque o pastor é líder no que diz respeito às coisas da Palavra (ensino, aconselhamento, correção teológica de tudo que se diz, culto etc.), mas a liderança referente às questões práticas, financeiras e de planejamento e estrutura (etc) está a cargo da diretoria eleita, que é composta pelo presidente, tesoreiro e secretário (com seus respectivos vices), nenhum dos quais pode ser pastor, e tem mandato de dois anos. Daí, o diálogo se torna imprescindível para tudo.

Bem, volto às obrigações.

Abraço,

Cesar