quarta-feira, 29 de junho de 2011

O mistério da pizza portuguesa e outro inusitado acidente semântico (uma carta)


Lisboa, 25 de março de 2011,

Estimado Seu Moço,


Andei por toda Lisboa, que se revela a cada passo uma cidade encantadora, e não encontrei o que queria muito comer por essas bandas: uma legítima pizza portuguesa. Aí em Belo Horizonte, desde criança, sempre comíamos pizza portuguesa, lembra? Com azeitonas pretas, linguiça, ovos, cebola e pimentão... Pois é, tudo o que eu queria era encontrar uma dessas feitas aqui na terra dos gajos. Não achei! E olha que procurei nos cardápios de várias pizzarias!

Começo a suspeitar que a tal pizza portuguesa que conhecemos aí não existe por aqui. Então, nada tem de portuguesa de verdade. Será? Mas, por que será que recebeu esse nome? Talvez por causa dos ingredientes, que deveriam ser vindos de Portugal no começo: linguiças e azeitonas portuguesas. Ora, mas a gente acabava comendo um acidente semântico! Isso mesmo, pois aposto que na maioria dos estabelecimentos utilizavam azeitonas argentinas e linguiça calabresa de qualidade duvidosa! E continuavam chamando aquilo de pizza portuguesa! Façam-me o favor!

Ah, Seu Moço, não posso deixar de comentar que, depois que passou a raiva momentânea, comecei a pensar que muita gente pode também estar frequentando acidentes semânticos achando que são Igrejas. É, estabelecimentos comunitários que reúnem alguns ingredientes parecidos com os do cristianismo, mas que, no fim das contas, nada legítimo têm. E não é que continuam se chamando "Igreja Cristã" ou "Igreja Evangélica"? Por que é que não trocam o nome por "Centro de Motivação Pessoal e Empresarial" ou algo do tipo. Sei lá. Ah, e a pizza portuguesa poderia se chamar "Pizza de Linguiça com Azeitonas e Ovos" ou algo assim também.

Bem, Seu Moço, o negócio foi me contentar com os tais pastéis de Belém, que tem uma massa bem gordurosa, se quer saber. Mas isso já é assunto pra outra carta. Ah, comprei a boina que você pediu.

Forte abraço,

Cesar

P.S. Ainda não desisti da busca, mas desta vez não dá tempo mais para procurar. Quem sabe na próxima vinda eu espreite outras regiões como Trás-os-Montes ou Além-Tejo.


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Fiz escondidinho


Escondidinho é o nome do que aparece aí na foto. A ideia é que um recheio com algum tipo de carne esteja escondido entre duas camadas de purê (de mandioca, geralmente). Na verdade, meu escondidinho (que fiz no sábado para a visita de minha sogra) ficou meio sincero, como você deve ter percebido. Fui traído pelo meu gosto exacerbado pelo molho de tomate, que, de tão abundante, deu as caras na superfície.

A receita é quase banal na teoria: Preparar um purê de mandioca (mandioca amassada, leite, creme de leite, sal e salsinha; tudo mexido no fogo por um tempinho) e um recheio (no meu caso, um molho com linguiça de pernil despedaçada). O trabalho maior é amassar a mandioca. Achei que fosse fácil como batata e quebrei a cara. 

No fim das contas, apesar do exibicionismo do que deveria estar escondido, e do trabalho extra para amassar o tubérculo rebelde, o resultado foi satisfatório. A combinação ficou ótima. 

Mas, e você? O que você esconde que de repente pode transparecer na superfície de suas relações cotidianas em momentos inadequados? Rancor, mágoas, ressentimentos? Segredos vergonhosos, dificuldades imensas? Seja o que for, o melhor é deixar que se mostre no momento certo, em uma confissão sincera diante daquele que pode te perdoar. Sim, é melhor do que deixar tudo isso entornar em palavras duras diante de seu semelhante. O salmista descobriu isso (Salmo 32:5). Ele não deixou seu pecado escondidinho, mas o confessou ao Senhor e este o perdoou. Confiantes no perdão que Cristo nos garante pelo seu sacrifício na cruz, façamos também assim, e que escondidinho só seja o nome de um prato saboroso, nada mais.

Um abraço,

Cesar

sábado, 25 de junho de 2011

Os "desigrejados" e o caldo verde

Interior da Igreja da Santíssima Trindade vazia, Tiradentes - MG


Qual a relação entre as duas expressões do título? Em princípio, nenhuma. Mas há uma sim, e outra que posso construir até o fim do texto. A frágil relação já existente é o fato de que conheci ambas em passeios por blogs nesta semana.

Vou começar pelos "desigrejados". Essa palavra estranha foi usada pela Rô, do blog MULHERES SÁBIAS, em uma longa conversa no blog A PEDRA, do pastor Anselmo Melo. Ela escreveu uma frase mais ou menos assim: "Tem um monte de desigrejado se passando por anônimo aqui". Sim, a frase é estranha, mas se explicava pelo contexto. Não perguntei para conferir o sentido pretendido com a palavra, mas imaginei que se tratam de pessoas cristãs que não participam de igreja alguma. Será que estou certo? Vou supor que sim, para pensar um minuto sobre essas pessoas.

Bem, eu não sou desigrejado (doravante, uso o termo sem aspas, considerando que já foi assimilado em nossa breve conversa como vocabulário padrão mutuamente reconhecido), mas já fui. Conheço também muitos desigrejados queridos. Acho que os desigrejados existem por nossa incapacidade de sermos verdadeiramente igreja cristã. Veja bem, não acho que a incompetência seja deles exclusivamente, nem dos igrejados somente, mas comum, de todos nós. Tanto eles, como nós somos parte da Santa Igreja de Cristo, Igreja invisível, mas mais subsistente que qualquer instituição visível que adote nome semelhante. Queiram eles ou não, saibamos nós ou não, se nossa fé é comum em Cristo, somos parte da Única e Santa Igreja, que se espalha por todo o mundo. Por que não estamos juntos em igrejas visíveis, instituições palpáveis? Volto à hipótese: Por nossa comum incompetência de sermos verdadeiramente igreja cristã. Se nossa vida eclesiástica estivesse estabelecida por uma relação de mútuo amor, pelo cumprimento do novo/velho mandamento, nossa únião seria bem mais viável. Se não amamos, não aprendemos a viver em união. O problema é que se não amamos verdadeiramente, também não somos verdadeiramente igreja cristã, segundo nosso amigo comum João.

Hoje, felizmente, posso desfrutar de uma saudável vida comunitária. Sou decididamente igrejado depois de momentos de incerteza e desigrejamento. Por isso, arrisco-me a dar pelo menos uma ou outra dica para a manutenção do igrejamento: Que a prática do amor e o serviço ao próximo sejam o seus objetivos centrais no ajuntamento, juntamente com o culto a Deus e o anúncio do Evangelho. Que a igreja não seja lugar para procurar erros dos outros, mas para que cada um se aperfeiçoe e se livre de seus próprios. Que se entenda que a igreja é uma comunidade formada por diversas pessoas, não uma empresa ou instituição que alguém possui. Que sempre nos lembremos de que somos todos pecadores, embora simultaneamente justos.

Enfim, a vida em Igreja não precisa ser uma questão de tolerar a presença dos outros, de birras e comparações, mas de crescer em amor com tranquilidade e felicidade.

E o caldo verde? Ah, esse caldo eu conheci em outro blog, o COZINHA TRAVESSA. Fiz, convidei meus pais, e todos aprovaram! Pensei, então, que o mesmo frio que pode nos manter afastados uns dos outros, cada qual em sua casa, pode também ser o ensejo para que nos reunamos em torno a um delicioso caldo como esse. Entre uma colherada e outra, nossas palavras tornam comuns as nossas experiências. Entre comentários e sorrisos, sem perceber, nos igrejamos um pouco.

Forte abraço a desigrejados e igrejados,

Cesar

terça-feira, 21 de junho de 2011

Saborosa Massa com cogumelos guarnecida por uma irresistível analogia com o Evangelho

Shiitake: fungo surpeendentemente saboroso e saudável

Sexta-feira, decidi cumprir algo que deveria ter feito no dia dos namorados: preparar um prato diferente para minha esposa e para mim. Como sempre, tinha que ser algo fácil. Mas também tinha que fazer valer a parte do "diferente". A solução: massa com cogumelos. Nunca antes eu havia preparado nada com cogumelos, esses simpáticos e nutritivos fungos avantajados, tolamente esquecidos pelos carnívoros e fielmente exaltados pelos vegetarianos.

Fechei a porta da cozinha enquanto ela estudava no computador. Então, ficamos a sós, uma bandeja de Shiitake e eu (Além do Vander Lee. Um prato com intento romântico solicitava uma música bem do gênero. E como não deixava de ser algo simplório, ninguém melhor que o grande cronista musical do simples cotidiano belo-horizontino). Pois bem, enquanto o Vander dedilhava "Esperando Aviões", "Românticos" e afins, eu enfrentei o meu dilema. Prepararia os cogumelos com molho de tomate, como sempre faço no caso de atum ou lombo? Mas se o fizesse, correria o risco de não deixá-los em evidência. Seria um desperdício, além de um retorno à mesmice. Mas sou louco por molho de tomate nas massas, gosto demais mesmo! E molho branco não me atrai tanto. Sabia que o certo seria deixar a massa meio sem molho, somente acompanhada dos ingredientes à mostra, com bastante azeite. Mas... Mas... Será que os cogumelos trariam o sabor necessário? Dizem os cogumelólatras que sim. Antes de contar minha decisão, apresento a analogia que subitamente me ocorreu:

Frequentemente, enfrentamos problema semelhante com respeito ao Evangelho. Ao apresentá-lo, o colocamos dentro de um molho de regras humanas, tradições, sabedorias e estratagemas, como se não confiássemos que, por si mesmo, ele possa produzir bons resultados. Duvidamos que o Evangelho tenha sabor suficiente. E, por vezes, esse molho que preparamos, em vez de valorizar o Evangelho, o deixa tão misturado entre outros ingredientes, que tira seu lugar de protagonista e o faz passar despercebido. Vã ilusão a nossa. A Boa Nova de Salvação é suficiente sim. A essa Boa Nova devem apontar todos os outros ingredientes. Ela precisa ser o centro de nosso discurso. E ela produzirá o efeito que tiver que produzir. Não nos envergonhemos do Evangelho. Deixe-mo-lo em evidência sempre!

Ainda na frigideira

Eu dei meu voto de confiança ao cogumelo (voltei à  conversa sobre cozinha, como você percebeu). Refogueio-o em azeite e acrescentei cebola em tirinhas. Depois, juntei salsinha e manjericão picados, além de molho de pimenta. Os tomates em cubinhos (sem sementes) vieram por último e apaguei o fogo imediatamente. Afinal, não queria que os tomates se desmanchassem, pois não queria um molho. Os cogumelos estariam à vista. Mais azeite  e tampei para abafar. Depois, misturei já nos pratos uma porção da massa com um tanto do refogado, mais azeite e queijo parmesão ralado.

O resultado? O shiitake é valente! Ficou muito bom! Minha esposa também gostou.

Talharim com Shiitake, guarnecido por brócolis japonês

 
***

Não usei todos os cogumelos no macarrão. Deixei dois guardados na geladeira. No sábado, meus pais nos convidaram para comer pão-de-queijo feito em casa. Na hora, tive uma ideia: preparar um molho de tomate picante com os cogumelos restantes para acompanhar os melhores pães-de-queijo do mundo. Ficou ótimo também! Voltando à analogia, confesso que vários elementos da tradição cristã me atraem muito por seu valor histórico, estético, didático etc. Não os desprezo, somente insisto que não devem jamais obscurecer o núcleo vital de nossa fé.
 
Inusitada e ótima combinação: pão-de-queijo e molho picante com cogumelos

Ah, e não é que meu pai, que achava estranha a ideia de comer fungos, gostou demais do negócio. "Parece carne, não é uma esponjinha não!", disse. Já minha mãe não provou, permanece irredutível. Mas isso só com o cogumelo. Graças a Deus, o Evangelho ela recebe de braços abertos.

Um abraço!
Cesar

P.S.: Você também, confie no poder do Evangelho e comprove as potencialidades dos fungos!

domingo, 19 de junho de 2011

A "água vivente/corrente" no batismo segundo a Didakhé

 
Imagine se um texto referido por Pais da Igreja Antiga tivesse se perdido no tempo. Imagine que lêssemos as referências dos Pais e ficássemos pensando: o que será que estaria escrito mesmo nesse texo? Agora, imagine o que aconteceria se esse texto fosse redescoberto. Pois foi o que aconteceu com a Didakhé, texto redescoberto no final do século XIX. De início, foi um reboliço só. Todo mundo começou a falar que o texto poderia trazer ensinos em primeira mão dos próprios apóstolos. Com o tempo, começaram a esmiuçar o escrito e a achar várias interpolações, marcas de diferentes redatores etc. Hoje, entende-se, em geral, que grande parte do texto foi redigida em um período por volta do início do século II (120 d.C., por aí). É sem dúvida um texto muito antigo e um importantíssimo testemunho das práticas cristãs no primeiro período pós-apostólico.

O trecho da Didakhé que traduzo e apresento abaixo orienta a respeito do batismo. Não é meu objetivo discutir fórmulas batismais, maneiras de se usar o elemento água, idade do batizado, nada disso. Se eu entrasse nessas questões, logo teria que identificar minha afiliação religiosa, o que não pretendo fazer. Os comentaristas, contudo, estejam à vontade para dizer o que quiserem. Eu quero somente observar que a expressão "água vivente" parece significar simplesmente algo como "água corrente". São as mesmas palavras que aparecem no trecho de João 7:37-39 (veja comentário em postagem do dia 10/06/2011), onde são tradicionalmente traduzidas por "água viva".

E a respeito do batismo, assim batizai: No nome do Pai, do Filho e do Espítiro Santo em água vivente (e)n uÀdati zw½nti). E caso não tenhas água vivente (uÀdwr zw½n), batiza em outra água. Se não podes em água fria, [batiza] em morna. Caso não tenhas ambas, verte água na cabeça três vezes, no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. E antes do batismo, jejue com antecedência aquele que batiza, assim como o que é batizado, e se alguns outros puderem. Mas mandas o batizado jejuar antes um ou dois dias.

E então? Aqui, pelo menos, a expressão parece indicar água corrente, não é? Ou você acha que os cristãos tinham um tanque de água viva especialmente preparada para o batismo?

Abraço,

Cesar

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Omelética



Seu Moço é um desses amigos que aparecem justamente nos momentos em que preciso de alguém para conversar e estou sozinho. Hoje ele veio calado. Convidei para vir até a cozinha me ajudar a preparar algo rápido para comermos. Ele veio.

Quebrei dois ovos em um prato fundo e pedi que os misturasse com um garfo enquanto eu pegava outros ingredientes. Daí, ele puxou prosa:

- Fiquei sabendo que você pregou esses dias lá na sua igreja. Legal. - um breve silêncio e prosseguiu - O que você acha do momento da pregação no culto?
- Como assim o que acho? Acho importante.
- Importante como?
- Meu pastor uma vez comentou que se o culto tivesse que ser reduzido por algum motivo, não se devia cortar do sermão, pois seria como tirar um pedaço do bife para deixar o almoço mais leve.
- Você concorda.
- Você sabe que não como carne de boi. Então, a imagem fica estranha pra mim, mas concordo com a ideia, eu acho.
- Acha? Hum... E quanto tempo você acha que deve durar um sermão? Qual deve ser o tamanho do bife?

Não respondi de imediato. Tinha que prestar atenção para cortar a pequena cebola em mínimos pedaços e não queria que uma lasca do dedo fosse junto. Logo, continuei a conversa enquanto jogava a cebola nos ovos.

- Acho que deve durar o necessário, não mais nem menos.
- Necessário como?

Mais uma interrupção breve, para acrescentar a pequena dose incerta dos condimentos: molho de pimenta, azeite de oliva, sal e salsinha.

- O tempo necessário para transmitir a mensagem proposta de forma compreensível, didática.
- Difícil.
- Também acho. Mas acho que conseguimos... Continua mexendo aí.

Calei-me assim, abruptamente, porque, sempre que me desconcentro, exagero no óleo ao untar a frigideira. Aproveitei o silêncio para ligar o fogo. E continuei:

- É... acho que conseguimos se focarmos no nosso objetivo desde o começo. Antes de escrever a mensagem, precisamos ter claro em mente o que queremos ensinar, lembrar, fomentar. Despeja tudo de uma vez aqui na frigideira. Daí, é preciso manter o foco, pois ninguém consegue acompanhar um raciocínio muito complexo cheio de referências com fraca conexão. Acho importante que a mensagem conduza o ouvinte a uma compreensão, a algo específico. Precisamos procurar as ilustrações necessárias, mas sem ser redundantes demais. Ah, e quanto ao conteúdo, acho importante falar sempre do Evangelho de forma clara, enfatizar o perdão e a salvação pela graça, mas sem deixar de...
- E o queijo? Não vai usar não?
- É daqui a pouco. Depois que virar, senão a gente nem percebe que tem queijo, porque esse queijo minas meia-cura derrete completamente e rápido demais. Se fosse queijo de coalho eu teria colocado antes mesmo dos ovos, em tiras. Fica bom demais também. Mas pode trazer de uma vez. Pois é, no sermão tem coisa parecida. Acho até bom antecipar a conclusão já no título ou na introdução, mas o momento certo de apresentá-la na íntegra é no final. Deixo um gostinho no começo e, no final, a ideia fica completa na fala e na mente das pessoas. Daí eles pensam assim: “Ah, por isso ele falou aquilo. Entendi!”. E essa satisfação do entendimento não é enganação, porque ajuda a produzir entendimento de verdade.
- Título!? Você põe título em sermão?
- Virei, pode espalhar o queijo. Você não ouviu a parte mais importante do que eu falei, não é? Passa aquela tampa. Vou abafar pra derreter.
- Tá pronto?
- Tá.
- Então vamos deixar esse negócio de homilética pra lá, que eu tô é morrendo de fome e você nem pastor ou padre é pra entender desse negócio. Cadê os pratos?


segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fragmento de um sermão (sobre perdão e ensino)

amora no pé de amora

Ontem, fiz algo que não costumo fazer quase nunca (fazia mais de um ano desde a última vez): fui o responsável pela mensagem durante o culto na comunidade em que participo. Depois, a partir dessa experiência, vou pensar um pouco sobre esse gênero do discurso chamado "sermão" e compartilharei algo com vocês. De momento, apenas deixo um fragmento do que disse ontem. Ah, sim, as leituras para o culto foram: Sl 25:1-15; Jl 2:28-32; At 2:1-21; Jo 7:37-39. E o título da mensagem é: "Além do perdão, o ensino: a graça e o Espírito no cuidado completo de Deus".


O Espírito Santo ensina para que os seguidores de Cristo testemunhem com coragem a respeito do Evangelho. Isso acontece em todo o livro de Atos. Inclusive, naquele dia de Pentecostes.  Deus demonstra naquele milagre das línguas a sua vontade de se fazer entender. Cada um ouvia em sua própria língua materna o que os discípulos anunciavam. E esse testemunho, essa palavra que produzia vida, saía como um rio de águas correntes. E quem aproveitava dessas palavras era como uma árvore que está plantada junto a correntes de água límpida, como diz o Salmo 1. [Acho que esclareço essa proposta na postagem anterior.]

Mas a ação do Espírito Santo nem sempre está, como naquele dia de Pentecostes, associada a algo barulhento. Se a compararmos com fenômenos da natureza, ela pode ser, como naquele dia, como um incêndio, que se percebe facilmente pelo cheiro, pelo calor e pelo barulho. Mas também pode ser como o crescimento de uma fruta em uma árvore. Silencioso, calmo, duradouro.

Havia um pé de pinha em minha casa. Um dia, meu pai me disse: “O pé já tá cheio de pinhas!” Eu duvidei: “Tá nada, pai. Só vejo folhas!” Ele me mandou chegar mais perto e eu vi que, realmente, havia mais de dez pequenas pinhas crescendo ali há vários dias, persistentes, mas sem alardes.

 A presença do Espírito Santo em nós gera um fruto, que Paulo descreve com os seguintes termos: “Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, honestidade, bondade, fé, mansidão, auto-controle” (Gl 5:22-23). Tendo tudo isso dentro de nós, fica mais viável fazer boas coisas, não é?

 Então, percebemos que o Espírito Santo ensinou os primeiros cristãos sobre o que eles deviam escrever e falar, para testemunhar com suas palavras o Evangelho Salvador. Hoje, Ele também nos ensina quando lemos a Bíblia e nos ajuda a falar de modo correto sobre Jesus. Mas Ele não nos ensina só a falar, mas também nos possibilita viver uma vida com atitudes coerentes com o que falamos. Porque se falarmos uma coisa, se pregarmos sobre o amor, e não agirmos de modo coerente, com amor, nosso testemunho pode ser em vão. Essa parte prática da lição também é imprescindível, pois como dizia João: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos. [Veja bem! Não porque “falamos sobre o amor”] Aquele que não ama permanece na morte!” (1João 3:14).

sexta-feira, 10 de junho de 2011

"rios de água vivente" em João 7:37-39: uma interpretação

água entre as pedras, Ipatinga - MG

A Tradução

No último dia da grande festa, Jesus ficou de pé e falou bem alto dizendo: Se alguém tiver sede, venha até mim e beba. Aquele que crê em mim, conforme disse a Escritura, a partir do seu interior fluirão rios de águas viventes. E isso ele disse a respeito do Espírito, o qual os que creram nele estavam para receber. Pois ainda não estava o Espírito, porque Jesus ainda nãoo tinha sido glorificado.

Questões de Crítica Textual (se não gostar disso, pule para a interpretação diretamente)

No verso 37, "venha a mim". Manuscritos importantes omitem "prós me", que traduzo por "a mim". Outros tantos, também muito antigos, o apresentam. No fim das contas, a expressão só serve como marcação de ênfase, já que a direção do movimento está implícita no contexto.

No verso 39, "os que creram". Optei por seguir a proposta da edição dos Aland, que apresenta um particípio aoristo (pistéysantes). Muitos manuscritos antigos, entre eles o Sinaítico, apresenta um particípio presente: pistéyontes. Uns poucos indicam um particípio futuro: pistéysontes. Bem, o aoristo não precisa ser traduzido por um pretérito necessariamente. Só o faço porque assim se harmoniza melhor com a expressão da qual este particípio é sujeito, "estavam para receber", que apresenta um verbo no imperfeito. Não obstante, o texto não sugere nenhuma exclusividade temporal.

No verso 39, "o Espírito". Aqui também segui os Aland. A discordância entre os manuscritos é notável. Papiros importantes (66 corrigido e 75) e o códice sinaítico, entre outros, só apresentam pneûma, "Espírito". Outros, como o papiro 66 (versão primeira), acrescentam hagion, "santo". Outros têm pneûma dedoménon, que daria: "pois o Espírito ainda não estava dado". Há, ainda, pneûma hágion dedoménon: a mesma frase de antes, mas com o "santo". Por fim, o uncial D apresenta quase sozinho tò pneûma hágion ep'autoîs, "o Espírito Santo sobre eles". Os Aland dão com certo que o texto mais próximo do original, nesse caso, é o mais curto: Espírito. Parece fazer sentido. É mais provável que as divergências dos outros manuscritos sejam fruto de tentativas de diferentes copistas de deixar o texto mais claro. Em geral, os críticos entendem que uma lição mais confusa parece ser a mais próxima do original, pois os copistas não tentam deixar o texto menos legível, mas o contrário. Seja como for, entende-se bem da mesma forma, quer com o texto mais implícito ou mais explícito.

Não há questão de crítica textual neste trecho que afete minha interpretação.

Interpretação pontual

Observo de início que o motivo desta nota é a impressão que tenho de que costumamos reproduzir um vocabulário hermético em nossas igrejas e composições musicais, sem compreender realmente o significado das expressões que usamos. Claro, como no conto "A roupa nova do Imperador", todo mundo diz que entende, para não parecer menos "espiritual". A bem da verdade, acho que a fala de Jesus é muito espiritual, mas talvez menos abstrata do que muitos pensam. O óbvio, às vezes, fica esquecido em meio aos delírios e o rei pode estar nu.

Primeiramente, observo que seria possível traduzir hýdatos dzôntos por algo mais simples como "de água corrente" (cf. Jr 2:13, em que a expressão hebraica (maim haiim) se contrapõe a uma cisterna (água parada); ver também como a expressão aparece na didakhé - se não conhece o texto, não se preocupe, que em breve apresentarei uma tradução do trecho). Mas não vou me deter nisso, inclusive porque a ideia de vida convém para a reflexão, pelo que prefiro mantê-la na tradução (tendo em mente que a imagem é descritiva também).  Considerando o comentário do evangelista após a fala de Jesus (verso 39), precisamos entender que "rios de águas viventes" se refere a algo relacionado com o Espírito Santo. E, considerando, a própria fala de Jesus, precisamos entender que a expressão "rios de água vivente" remete a algo que está antecipado na "Escritura" (he graphé). Uma interpretação que não procure esse duplo olhar não seria considerável, por desrespeitar informações do próprio texto.
Preciso, pois, responder a duas questões: 1) O que um rio parecido poderia indicar na Escritura disponível no tempo de Jesus (penso na Bíblia Hebraica, a Tanakh, como um todo, e não somente na Torah)? 2) O que o Espírito Santo faz que tenha a ver com essa imagem de rio refletida na Escritura?

Vamos, como diria o Jack, por partes (que expressão horrível para um assunto tão sublime!). Óbvio que não vou fazer um levantamento completo sobre "rios" na Escritura. Seleciono apenas dois trechos que me ajudam na presente reflexão. São eles:

Provérbios 18:4  Águas profundas são as palavras da boca de um indivíduo. Torrente que jorra é fonte de sabedoria.

Salmo 1:2-3 [bem-aventurado o homem que...] ... que cujo deleite está na instrução de YHWH, e na instrução Dele pensa dia e noite. Ele será como árvore plantada às margens de canais de água...

Pois bem, o que quero que se perceba é que a água corrente está relacionada com a palavra, com a instrução que se faz pela fala. É até curioso o fato de que o verbo quer traduzi por "jorra" no provérbio (nove') também pode significar algo como "declarar". Ou seja, o uso metafórico da imagem do rio correndo ou da fonte jorrando para indicar a fala está muito óbvio no meio dos hebreus, ao ponto de ser anotado na própria linguagem cotidiana. Antes que eu viage demais, vamos à segunda questão que propus. No caso do Salmo, o que medita na Palavra de Deus é apresentado como uma árvore que está junto a um rio. A Palavra obviamente é essa água que lhe dá vida.

O que o Espírito faz que tenha a ver com tudo isso? Vamos direto aos textos:

João 14:16 O consolador, o Espírito Santo, o qual o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos lembrará tudo o que eu vos disse.

João 16:8 E quando tiver vindo, ele convencerá o mundo com respeito ao pecado, à justiça e ao juízo.

Esses dois textos, que estão no Evangelho de João como o que agora discuto, já deixam claro uma grande função do Espírito: o ensino. Ele ensinaria os discípulos de modo que pudessem escrever os Evangelhos, e também ensinaria tudo que precisariam falar, bem como convenceria (O verbo é elénkho, muito usado na retórica - inclusive no Górgias de Platão - como "refutar", "convencer". Lembra o contexto de um debate. Curioso.) o mundo. Junto a esses textos, quero que se lembre da grande função do Espírito no livro de Atos, desde aquele dia de Pentecostes. O ensino já está marcado no primeiro milagre das línguas (cada um entende no seu idioma, o que derruba uma grande barreira do aprendizado) e continua no fato de que o Espírito enche os discípulos de modo que seus discursos sejam efetivos. Ele os ensina o que dizer.
Se você acompanhou a reflexão com atenção, eu nem precisaria apresentar a conclusão que tenho. Mas, para o caso de algum desavisado, aí vai: 

Proponho que se entenda os "rios de água vivente/corrente" a que Jesus se refere como as palavras dos cristãos, seus discursos de anúncio do Evangelho, motivados pelo Espírito. Esse rio-palavra transborda de dentro do indivíduo e, como torrentes de água límpida, fica disponível para multidões. O rio que saiu da boca de Pedro mudou a vida de três mil pessoas. E as enchentes continuaram. E espero que continuem. Mas, infelizmente, frequentemente, não queremos jorrar desses rios, da Palavra de Anúncio do Evangelho, mas somente de palavras nossas, muitas vezes carregadas de rancor e legalismo barato, ou sentimentalismo vazio. Os rios de água vivente não são uma imaginação ou um delírio místico, muito menos uma boa desculpa para uma melosa música de "adoração", são o próprio Evangelho, que é poder de Deus para salvação do que crê.

É isso. Mais que isso eu não consigo escrever em menos de duas horas. Ah, isso é só um blog mesmo, né?

Abraço,

Cesar

P.S.: Não sei transliterar o hebraico com precisão. Faço apenas uma transliteração de acordo com o som de minha leitura.
P.S.': Devo escrever mais sobre água, tanto no que se refere à Bíblia e à tradição cristã, quanto no que se refere à culinária, música etc. Tudo de acordo com o tempo que tiver disponível. As tarefas se avolumam novamente.
P.S.'': Certamente, minha conclusão pode ser incrementada pela observação de outros textos e pela consideração da ação do Espírito de modo mais completo. Tentarei continuar em postagem futura. De momento, se você puder contribuir, dicordando inclusive, para a interpretação aqui apresentada, não se acanhe. Isso foi só um esboço e não tenho muita vergonha das minhas ignorâncias. Escreve que eu aguento.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Convite para lançamento da Revista de Estudos Judaicos número 8





Como vocês já devem ter percebido, eu não sou judeu. Mas apresento este simpático convite que me foi enviado há alguns dias por dois motivos: a palestra parece interessante e a revista a ser lançada conta com a contribuição de um artigo meu. Apresento o resumo do mesmo abaixo:

Dor de letra: relatos de sofrimento em Fílon de Alexandria (I d.C.) e Primo Levi (XX d.C.)

Neste ensaio, pretendo observar a maneira como Fílon e Levi lidam com o ato de narrar o sofrimento imposto aos judeus de seu tempo. Não se trata de uma comparação entre dois eventos históricos (a perseguição aos judeus alexandrinos em meados do século I e a Shoá, século XX), mas entre as maneiras de se colocar como narrador desses fatos. Ambos fazem uma opção pela palavra como meio de sua expressão, mas também reconhecem as limitações desse “órgão” e, em algum momento, recorrem a uma forma específica dele (a poesia, palavra-arte) e ao corpo (o corpo narrado) para precisar o que contam. Esse aspecto deve ser explorado com algum cuidado nas páginas que seguem, juntamente com uma indagação inicial: em que medida os relatos de Fílon podem ser considerados “testemunhos literários” juntamente com os de Primo Levi?

 

Enfim, não é nada muito ortodoxo. Na verdade, é o resultado de um estudo que fiz há mais de um ano, em uma disciplina de Literatura e Psicanálise, com o professor Ram Avraham Mandil, a quem eu devo, portanto, um agradecimento. Espero que alguém aproveite! Eu, pelo menos, passei bons momentos e cresci um pouco com a reflexão.

Abraço,

Cesar

Pai Nosso cantado

Para finalizar uma pequena série de postagens relacionadas com a oração que o Senhor nos ensinou, convoco a música. Ao longo dos séculos, muitas foram as pessoas que musicaram essa exemplar oração, quer com finalidades litúrgicas ou simplesmente de entretenimento. Pessoalmente, gosto de alguns resultados, de outros nem tanto. Mas apresento o trabalho de João Alexandre, que julgo muito bom:


É isso! Um abraço,

Cesar

sábado, 4 de junho de 2011

Um poema em homenagem às construções faraônicas realizadas e anunciadas pelo evangelicanismo brasileiro

religião hoje se faz com pedra
                                                    Cesar M. R.


pedra, suor e dinheiro trocado 
choro, emoção e cliente pescado

e de pedra sobre pedra
esquece que tudo começa
com o des
                   mo
                         ro
                                na
                                       men
                                                 to
da pedra rejeitada
pedra angular, pedra de tropeço
verdadeira santa pedra
que troca pedra por carne
aqui dentro do peito

pétrea, seca e vã religião,
o que é que você esconde
atrás do mármore polido?

Ah, espera, dona rocha,
você que não liga nada,
você que não preocupa,
você que se faz grande,
se afasta dos pequenos,
espera, pois virá um dia que não esquecerá,
suas sólidas construções serão derruídas
seu motivo de orgulho já não existirá
e quem de você se lembrará?
Espera, que já não restará
pedra sobre pedra
pedra sobre
pedra
sobr
epe
dr
a
s
o
b
r
e
p
e
d
r
a
.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Receitas para um sábado bom


Olha! Como é bom e prazeroso
que descansem os irmãos também unidos!
Salmo 133:1, em uma tradução bastante possível, mas que só me ocorreu depois do último sábado.

O que fazer de um dia livre? As opções são várias e muitas delas representam excelentes escolhas. Mas, ao menos de vez em quando, é importante que a escolha não leve ao isolamento (do indivíduo, do casal, ou mesmo de uma família restrita). Estar junto com outras pessoas ajuda a descansar a mente, a aprender novas coisas e a praticar algo imprescindível para nossas vidas: o compartilhar. Se esse estar junto puder envolver também algum prato especial, maravilhoso! Se, além disso, for repleto de música, ótimo! Se essas músicas fizerem lembrar daquele que é a razão de nossa unidade, completo! Será um descanso bom e prazeiroso!

Foi o que felizmente aconteceu no último sábado aqui em casa. Um casal de amigos e irmãos veio com a nobre intenção de reconduzir-nos (a minha esposa e a mim) aos caminhos do aprendizado musical. Minha intenção, por outro lado, foi distraí-los com comida, para não passar vergonha com a música. 

No fim das contas, a comida ficou boa, mas não escapei de alguns micos. Foi um ótimo sábado, que deve se repetir (espero que com mais afinação de minha parte). Agora, já que as receitas contribuíram para isso, vou compartilhá-las bem rapidamente (as fotos explicam quase tudo):


A Entrada

Salada com agrião, mini tomate italiano e muçarela de búfala com salsinha, acompanhada de pão sírio e molho especial de cajá-manga (um potinho de iogurte natural desnatado, suco de um cajá-manga, orégano, um dente de alho espremido, vinagre balsâmico e azeite extra virgem).

O Prato Principal

Talharim com Atum à moda do Saboroso Saber (conforme receita apresentada neste blog dia 25/04/2011, na postagem "Peixe à moda do Nazareno". Fica bem bom! Se quiser, procure no arquivo.)

A Sobremesa

Creme de coco (leite condensado, creme de leite, leite e coco ralado) coberto com geleia caseira de morangos (250gr de morangos maduros, uma colher de sopa de açúcar, meia xícara de água e muita paciência ao fogão).


É isso! No mais, obrigado ao Daniel e à Cintia pela visita!

Um abraço,

C.