quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Fugindo para o Egito Ele se encontrou conosco







Esses dois quadros têm nomes semelhantes (Descanso na fuga para o Egito e Fuga para o Egito, respectivamente). A visão de ambos, de um logo após o outro, realça o contraste. Na verdade, assim estão expostos no museu da Fundação Calouste Gulbenkian, um de costas para o outro, separados por uma parede. Você vê um. Dá a volta e se depara com o outro. Acaba voltando para conferir novamente o primeiro. E, se ainda tem sensibilidade debaixo da casca endurecida pela rotina robotizante do mundo frenético, percebe o convite à reflexão sobre esses dois lados da mesma parede.

José e Maria abandonam a sua terra e partem para um êxodo forçado (e às avessas) rumo ao Egito, com Deus no colo. O Deus feito menino foge com eles. O Rei dos reis fugindo do rei bravento. Será que seus pais faltaram ao culto da vitória? Será que não oraram direito? Não determinaram? Não persistiram ou exercitaram a fé? Não completaram a corrente? Não passaram adiante aquele e-mail cheio de anjos? Não visitaram a catedral não sei das quantas? Não compraram a fitinha, o sabãozinho, a coluninha ou sei lá mais o quê?

Maria tem fé. Mas deve ser assustador levar Deus no colo. Deve ser assustador pensar que ele depende de seu peito, de seu calor, de sua memória, tão humana e tão comum. Não importa se se assustam. José é bem disposto e vai com a esposa rumo a uma terra distante. Provavelmente se juntarão à enorma colônia de judeus que vivem no Egito. Encontrarão apoio. Mas isso não elimina o trauma da retirada. Fica a família, ficam os clientes do moço, fica a terra conhecida. Cercam-nos os temores e perigos do caminho. Mas, como levam o Caminho com eles, é certo que estão bem cuidados. Se podem compreender já o propósito do Eterno, eles sabem que não estão sós. 

Mas o Deus no colo também é menino, é bebê e chora, tem fome, dá trabalho e gera ansiedade. É frágil. E a rota árida é ameaçadora. Há escuridão e tensão. Ele é homem. Eles são falhos. Há luz e cuidado. Ele é Deus. Eles estão convictos.

Escuridão. Ele conhece a precariedade da vida humana desde o começo. Ele conhece o caminho dos que vão. Ele entende dos retirantes famintos, do peão de obra que atravessa a metrópole rumo ao trabalho massante e, na volta, fica duas horas de pé no ônibus por causa do alagamento, da senhora (uma de nossas senhoras) que equilibra a lata d'água na cabeça enquanto pisa a poeira triste do sertão, do menino que vai à escola longe de havaianas remendada com preguinho, porque o prefeito desviou a verba do transporte escolar, do...

Ele conhece. Ele foi ao Egito. E ele veio a nós para isso. Fez sua tenda por aqui.

Há escuridão. Há claridade.

Mas uma coisa é certa: a Graça que nos traz o perdão e o acolhimento nos levará até o fim e nos dará descanso.

No amor daquele que se fez retirante para achegar-se aos pequeninos,
e desejando um fim de ano cheio de saboroso saber,

Cesar




segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Terrorismo em igrejas cristãs na noite de Natal!

Recebi esta notícia por e-mail do jornalista O. Wurman há poucos minutos. Decidi postá-la porque pensei no seguinte: os blogueiros cristãos que afirmam que o Natal não é festa cristã (algo completamente impensável, a meu ver) se esqueceram de contar esse detalhe aos extremistas da Nigéria. Agora, quando chegarmos à eternidade, vão lá conversar com esses mártires e digam a eles que o Natal não tinha nada de cristão, que era só consumismo, comilança etc...

TERROR FUNDAMENTALISTA ATACA 5 IGREJAS NO NATAL

Nigéria sofre com ataques a bomba a igrejas católicas- Cinco explosões em igrejas católicas levaram terror à Nigéria neste domingo. Ao menos 35 pessoas morreram e várias ficaram feridas após uma detonação durante a Missa do Galo na igreja de Santa Teresa, localizada no povoado de Madalla, próximo à capital, Abuja. Pouco tempo depois, uma segunda explosão aconteceu na igreja da Montanha de Fogo, na cidade de Jos, no centro do país, matando um policial. Um porta-voz do governo informou que, após o atentado, ouviram-se disparos. Outras duas ocorreram na cidade de Damaturu, norte do país, mantando quatro pessoas. Uma quinta aconteceu em Gadaka, no nordeste nigeriano, deixando muitos feridos. A seita islâmica Boko Haram assumiu a responsabilidade pela onda de explosões na Nigéria neste dia de Natal, incluindo o ataque a uma igreja que matou pelo me nos 35 pessoas. O porta-voz da Boko Haram Abu Qaqa divulgou um comunicado à associação de jornalistas de Maiduguri, capital da região onde há um reduto do grupo. A Nigéria tem enfrentado uma série recente de explosões e atentados cometidos pela seita. Durante o último ano, os extremistas realizaram ataques cada vem mais sangrentos, numa campanha para implementar leis muçulmanas em toda a Nigéria, país com mais de 160 milhões de habitantes. Na véspera do Natal passado, em Jos, uma série de explosões nas vésperas do Natal já matara 32 pessoas e deixou feridas mais 74. De acordo com as autoridades nigerianas, enfrentamentos registrados no Noroeste do país nos últimos dias entre a seita e as forças de segurança do país mataram ao menos 61 pessoas. A embaixada dos Estados Unidos em Abuja emitiu um alerta na última sexta-feira, exortando seus cidadãos a se manter "particularmente alertas" ao passarem perto de igrejas, entre multidões e zonas que congregam estrangeiros. O Vaticano condenou os ataques a igrejas católicas. "Nós nos solidarizamos com o sofrimento da Igreja nigeriana e todo o povo nigeriano, tão afetado pela violência terrorista, mesmo nestes dias que deveriam ser de alegria e paz", disse o padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, neste domingo.


domingo, 25 de dezembro de 2011

Uma de minhas músicas preferidas de natal


Nasceu o Redentor é uma das músicas que mais gosto de cantar com o Coral de minha comunidade nos períodos natalinos. Qual é a sua preferida?


Alerta, ó terra, entoa! O canto que ressoa;
O mundo pecador tem grande sorte e boa.
A nova se vos dá, e quão alegre soa;
Nasceu o Redentor!

Nasceu o Redentor! Nasceu o Redentor!
O eterno Pai do céu seu Filho ao mundo deu.
Alerta, ó terra, entoa a nova alegre e boa:
Nasceu o Redentor!

A noite já passou, a aurora já raiou;
O negro e denso véu de todo se rasgou.
Dos montes através o brado ressoou;
Nasceu o Redentor!

Nasceu o Redentor! Nasceu o Redentor!
O eterno Pai do céu seu Filho ao mundo deu.
Alerta, ó terra, entoa a nova alegre e boa:
Nasceu o Redentor!

Nasceu o Rei da paz, num berço humilde jaz.
Nas asas desse amor conforto a todos traz;
Dizei em alta voz que Cristo satisfaz;
Nasceu o Redentor!

Nasceu o Redentor! Nasceu o Redentor!
O eterno Pai do céu seu Filho ao mundo deu.
Alerta, ó terra, entoa a nova alegre e boa:
Nasceu o Redentor!

Ó gozo divinal, amor celestial,
Quem pode te sondar ou ter um outro igual?
Posso eu da morte réu, gozar ventura tal?
Nasceu o Redentor!

Nasceu o Redentor! Nasceu o Redentor!
O eterno Pai do céu seu Filho ao mundo deu.
Alerta, ó terra, entoa a nova alegre e boa:
Nasceu o Redentor!

Ó povos, exultai, nações, ó jubilai,
Eis finda toda dor jamais se dá um ai;
A virgem deu a luz; a Deus glorificai!!
Nasceu o Redentor!

Nasceu o Redentor! Nasceu o Redentor!
O eterno Pai do céu seu Filho ao mundo deu.
Alerta, ó terra, entoa a nova alegre e boa:
Nasceu o Redentor!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Rejeitaram meu macarrão. Muitos rejeitam o Salvador.


Aproximando-se o Natal, tudo faz pensar naquele que é o maior presente que o ser humano pode receber, mas que muitos têm rejeitado. Alguns o rejeitam por soberba, racionalismo exacerbado ou coisa do tipo. Outros, contudo, o rejeitam porque não receberam a informação correta sobre ele. Conheceram uma versão equivocada, que recebia o mesmo nome. Souberam de um Jesus que, segundo os pregadores, os amava, mas que não fazia muito por elas. Um Jesus que não trazia perdão, paz e salvação, mas somente mais encargos, responsabilidades, bugingangas e pendengas mil.

Coisa parecida aconteceu ontem aqui em casa. Uma família de amigos veio passar a tarde e prosear. Tomaram o café da tarde conosco (Com bolo de fubá e pão de queijo, pois aqui é Minas, uai! E eles são capixabas). O tempo passou e o sol fez que queria se esconder. Então, nós os convidamos para jantar conosco. Dissemos que facilmente prepararíamos um macarrão bem bom. Muito prontamente se recusaram. Acontece que trazem na memória uma experiência recente de um macarrão terrível que comeram. Eu também me lembro, porque dele também compartilhei na ocasião. Uma coisa assim... grudenta e indefinida. Não foi culpa de quem o preparou, mas da falta de recursos. Sejamos justos! Mas os três amigos que conosco estavam ontem nem quiseram saber. O trauma foi grande demais. E recusaram. Talvez não tenhamos feito a propaganda devida. Não sei. Uma pena, pois a prosa ia bem. E o macarrão não ficou grudado. Na verdade, foi a primeira vez que preparei uma pasta di grano duro vinda da Itália (primeira vez que comprei, pois achei em boa promoção). O resultado foi um penne rigate com molho de atum. Cheguei à conclusão de que o preço um pouco mais alto dessa massa importada faz sentido. A textura é mais firme que a das massas produzidas aqui no Brasil. E o amido que solta é bem menos. Não fica grudado mesmo.

Acho que eles vão ler e ver o que perderam aí na foto de cima. Mas muitos que recusam o verdadeiro Cristo, julgando que aquele que lhe apresentaram alguma vez é ele mesmo, não acham quem lhes torne a oferecer o Presente de modo claro, honesto e transparente. Uma pena.

Neste Natal, tente falar do Presente de modo coerente com a Palavra. E se você ainda não o conhece assim, não se feche completamente para ele, pois se você soubesse o que está perdendo...

Um abraço,

Cesar


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Doce de abacaxi com coco (fácil, muito fácil)


 2 rodelas generosas (2cm) de abacaxi maduro, partidas em pequenos pedaços.
 1 bocadinho bem pequenino de canela em pó.
 3/4 de xícara de água filtrada.
 3 colheres das de sopa de coco ralado.
 1 lata de leite condensado.
 1 fio de azeite extra-virgem

Coloque os pedaços de abacaxi em uma panela e aqueça mexendo de vez em quando. Depois que soltar uma calda, mexa mais e acrescente o bocadinho de canela e, aos poucos, 3/4 de xícara de água. Deixe ferver até reduzir um pouco. Quando começar a parecer que toma aspecto de doce, acrescente o coco ralado e mexa rápido. A água deve ter quase secado. Junte o leite condensado e mexa mais um pouco. Logo, a consistência vai mudar. Parece que o leite condensado dá uma talhada. Quando o fundo da panela começar a aparecer ao passar a colher, está quase na hora de desligar. Desligue, acrescente o fio de azeite e continue a mexer por mais uns 30 segundos. Pronto! 

Eu fiz porque sobrou abacaxi de um suco que fiz, e coco de outro doce. O azeite é um toque especial, com a desculpa de dar brilho. Gostei do resultado.

Quem sabe, com uma incrementada, esse doce não pode virar sobremesa para o Natal ou ano novo? Pensei em uma ganache de chocolate meio-amargo por baixo e por cima, numa taça redonda. Olha...

Um abraço,

Cesar (prometendo mais receitas para breve).

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"Eu sei o sentido do Natal"

"Eu sei o sentido do Natal". Este é o primeiro verso e, se não me engano, o título, da única canção de Natal que cantávamos na igreja quando eu era criança. Por um motivo ou outro, a data não tinha lugar muito especial naquela comunidade barulhenta. Não havia árvore, decoração especial, cantatas, nada. Só lembro de duas coisas: dessa música e de um sermão do pastor, no qual ele falava sobre um jovem que teria se suicidado por não saber o sentido do Natal. Ele repetia esse sermão todo ano.

Noutra fase da vida, já na adolescência, eu participava em uma igreja também sem árvore, decoração, cantata... Mas o pastor tentava adequar o conteúdo dos sermões às datas do calendário litúrgico, pelo menos às mais evidentes. O Natal era uma delas. Ele pregava sobre o nascimento de Jesus. Mas, se na Igreja a relação com o Natal estava assim, meio morna, eu, por minha conta, me aprofundava (na época eu entendia assim, mas hoje vejo que cheguei a pouco mais de 1 cm de profundidade) em uma busca de evidências contra a celebração natalina. Investigava na internet, onde facilmente se acha respaldo para todos nossos devaneios, e encontrava afirmações chocantes: o Natal era festa pagã; era celebração do deus sol; não era a data do nascimento de Jesus de verdade etc etc etc...

Isso passou também. Fiquei indiferente. Pelos caminhos da vida, encontrei outra comunidade cristã, a terceira. Nesta, tudo era diferente. O Natal e seu sentido são celebrados, vivenciados, comemorados e anunciados com cores, sons, canto a quatro vozes, palavras e gestos. Estranho, em princípio. Mas logo tudo fazia sentido, isto é, tudo desaguava no Sentido, e me levava a perceber a coerência da celebração, não por precisão histórica, mas por autenticidade da fé nela inserida. 

Hoje, "eu sei o sentido do Natal" e esse sentido é tão intenso que não me julguem se preciso de muitos significantes (símbolos, palavras, cores, gestos) para indicá-lo.

E por que escrevi isso? Porque lembrei que muitos ainda estão confusos. Há poucos dias, no blog da Rô, um pastor (acho que era) dizia que não celebrava o Natal, pois não tinha nada a ver com a cultura nordestina, que era coisa de americanos. Entristeci-me, pois o Natal não é coisa de um país específico (ainda que uma forma específica de celebrá-lo possa ser), e também não é só consumismo. E a função da Igreja é justamente aproveitar a época para proclamar o Sentido do Natal, que, no comércio e no imaginário de muitos, já muito dista daquela singela manjedoura em Belém.

Eu sei o sentido do Natal, pois na história tem o seu lugar. Não só na história da Criação, mas também na minha pessoal. Cristo veio para me Salvar!

Um abraço natalino,

Cesar

Achei a música, mas errei o título:




sábado, 10 de dezembro de 2011

Noite Feliz? - 3º Domingo de Advento

Neste terceiro Domingo de Advento, eu me calo. Deixo que o Fruto Sagrado tome o meu lugar e comente. A letra dessa música nos faz repensar, entre outras coisas, a pertinência de nossas palavras e atitudes. Que cada um entenda o que puder entender. Deixo já o meu abraço.


Você já esqueceu do aniversário de quem você ama?
Já esqueceu o nome de alguém que te ama?
Mas chega o fim do ano e é tudo igual,
Eu acho que vocês acham que eu sou débil-mental!
São mais de 300 dias debaixo da opressão
Medo da guerra, da bala perdida, medo do medo da solidão,
Eu vejo os shoppings lotados, ruas lotadas,
Avenidas decoradas por corações vazios...

Feliz Natal! Pra criança deixada na rua...
Noite Feliz! Praquele que não tem o que comer!
Feliz Natal! Pro pai desempregado...
Noite sem paz! Praquele que a morte veio ver!
Uma noite de paz! Uma noite...

Estava desconfortável, escuro e frio...
O cheiro dos animais invadia o curral
Onde a virgem Maria trouxe ao mundo
O Príncipe da Paz, o único capaz
De transformar o caos em harmonia,
A tempestade em calmaria,
Corações sujos como aquela estrebaria
Em um lindo shopping center decorado pro Natal...

Feliz Natal! O natal que muita gente esqueceu!
Noite Feliz! Pra quem ainda não veio pra festa!
Feliz Natal! O mundo é quem ganhou o presente!
Noite sem paz!
Pra quem esqueceu daquele que nunca te esqueceu!

Feliz Natal! Deixe-o nascer em seu coração!
Noite Feliz! O passado fica pra trás!
Feliz Natal! Você é o presente de Deus!
Noite de paz! A morte morreu de medo ao ver Jesus nascer!
Uma noite de paz! Muito mais que uma noite de paz!

domingo, 4 de dezembro de 2011

João Batista de Da Vinci, perfeita e péssima representação - 2º Domingo de Advento

Neste segundo Domingo de Advento, João Batista me apareceu nas leituras que hoje se fizeram na igreja. Por isso, resolvi falar dele de modo breve, breve mesmo. Gostaria somente que você considerasse o seguinte quadro pintado por Leonardo Da Vinci por volta de 1516:


Incomoda, não? Um sujeito assim, meio andrógino, não representa bem o profeta meio rude que conhecemos pelas páginas dos Evangelhos. Que olhar é esse? E esse sorriso? E que shampoo era esse que João Batista encontrava no deserto para ter cachos sedosos? Péssimo, senhor Da Vinci!

Por outro lado, a representação é perfeita, não pela feição do retratado, mas por seu gesto. João Batista aponta. E se você olhar mais de perto, verá que ele aponta para a cruz! E é isso que ele fez, de fato. "Vejam o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!" Vejam a ele, não a mim. Vejam!

Quando olho para o quadro, agora, penso que, se implico, é porque não somente a pintura do artista é equivocada, mas também o meu olhar. Eu deveria submeter-me ao gesto e olhar para a cruz, esquecendo-me daquele que aponta. E eu também devo apontar. E devo esperar que de fato não olhem para mim, mas para aquele que assinalo, Jesus Cristo, o cordeiro de Deus, morto pelos nossos pecados. Mas isso é difícil, pois, na prática, apontamos para a cruz, mas deixamos e queremos deixar nossas faces no foco.

Fragmento de oração (junte seus cacos com este e construa sua prece)

Senhor, não posso esconder de ti minhas limitações. Sei que preciso apontar para Cristo sem a vaidade de querer ser visto. Mas é difícil vencer o velho homem que habita em mim. Perdoa-me essa falha e ajuda-me a compreender o verdadeiro sentido de viver para Cristo.

Abraços,
C.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A resposta de Maria - 1º Domingo de Advento


A resposta de Maria: reflexão para o 1º Domingo de Advento a partir de Lucas 1:26-38

O anjo Gabriel foi levar uma notícia muito estranha a uma jovem do povo judeu, uma que poderia passar despercebida, não fosse o que estava por acontecer. Ela poderia ter sido uma entre tantas a receber o nome da irmã de Moisés. Mas não foi assim.

De início, ele a saúda chamando-a de agraciada. Ela não entende o motivo. Então, encontramos sua primeira resposta: o silêncio acompanhado de reflexão.

Em seguida, o anjo anuncia a mensagem, dizendo que ela conceberia e daria à luz um filho muito especial, que já nasceria com promessas impressionantes. Maria não duvida das promessas todas, mas se incomoda com um detalhe, a aparente impossibilidade de uma virgem, como ela, conceber. Aqui, sua segunda resposta: uma pergunta específica.

Maria pergunta como aconteceria aquilo se ela nunca tinha feito sexo. O anjo explica o sobrenatural e apresenta como evidência da possibilidade do impossível o caso da própria parenta de Maria, Isabel, que há pouco concebera mesmo sendo idosa e estéril. Finaliza sua fala observando que nada é impossível para Deus. Agora, nos deparamos com a terceira resposta de Maria: a afirmação de sua submissão diante da mensagem anunciada.

“Aqui está a serva do Senhor. Que se faça segundo a tua palavra”. Ela é decidida. E esta sua decisão parece repercutir em todo seu comportamento subsequente ao longo da narrativa do Evangelho.

Silêncio, pergunta pertinente e submissão decidida. Essa resposta em três etapas talvez seja uma boa receita para nós também, quando nos deparamos com pontos do pensamento cristão que nos parecem paradoxais ou mesmo problemáticos. Silenciar significa esperar para compreender melhor, em vez de logo negar, reclamar ou debochar. Perguntar uma pergunta certeira significa não perder-se em discussões sobre o que não é o ponto que realmente provoca a dúvida. Submeter-se significa reconhecer que a mensagem do Eterno não depende, no extremo, de nossa total compreensão. Ela requer, isso sim, nossa submissão.

Maria foi sábia assim diante da melhor notícia do mundo. Nós também recebemos tão maravilhosa notícia nestes dias, quando começamos a nos preparar para lembrarmo-nos do nascimento de Jesus, o Cristo, no tempo histórico, a refletirmos sobre o fato de que ele nasce nos corações de muitas pessoas quando sua mensagem é anunciada, e a aguardarmos pela sua segunda vinda. Nisto consiste a tríplice tarefa que temos neste período de Advento. 

Há coisas que não entendemos sobre os temas próprios deste tempo. Vamos tagarelar de imediato? Vamos perder-nos em perguntas erráticas? Vamos desprezar a autoridade da Palavra do Senhor?

Eu, velho homem que também sou, tendo a tudo isso. Mas quero fazer como Maria: calar-me, perguntar o que preciso mesmo perguntar, e submeter-me à revelação do Criador. Nisso, há sabedoria. Isso é bom fazer.

Fragmento de oração

Senhor, ajuda-me a saber reagir diante daquilo que não compreendo plenamente. Ajuda-me a ter paciência para não dizer coisas sem sentido, sabedoria para fazer as perguntas certas, e submissão para aceitar a resposta que vem de ti. E obrigado por Cristo, que com seu incompreensível amor me fez acolhido por ti, para a vida eterna.

Um abraço,

Cesar

P.S. Neste mês, não apresentarei o "Devocional do Mês", mas, se possível, quatro reflexões como esta, uma para cada Domingo de Advento. Espero que lhes sirva para edificação, ainda que não compartilhem do mesmo calendário litúrgico.


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

fofoca: ceia cruel e desprovida de amor


Não tem como não falar de outras pessoas. Mas tem como escolher o que falar e a maneira de falar. Hoje, comento sobre uma escolha e uma maneira específicas, que costumamos chamar de fofoca. É algo que não me lembro de ter sofrido contra mim há muito tempo. Mas que nos circunda e ameaça. Dentro e fora.

De imediato, o leitor pensará que mencionarei o famoso texto de Tiago, no qual o irmão do Senhor Jesus se refere à língua como um pequenino órgão que faz grandes estragos. Mas se o leitor já pensou nisso, não preciso lembrar outra vez. Vou direto à imagem que me ocorreu.

Alguns falam de outras pessoas e se deliciam com isso. Jantam a imagem, a reputação e a honra alheia como se fosse uma picanha gordurosa e suculenta. Fatiam, picam, espetam o garfo e abocanham diante de todos. Pode-se ver o caldo escorrendo de seus lábios, misturado ao veneno de suas presas. O prazer de se destroçar o que, na visão deles, já é fraco, os domina por completo. E o colesterol dessa refeição perniciosa vai rápido por suas veias e começa a entupir as entradas de seus corações. O próprio sangue já não chega e sai tão facilmente por ali. Claro que não. Eles, aos poucos, querem mais e mais vítimas e já não percebem o que fazem, pois o sangue que vivificaria suas consciências já não pulsa como d'antes. O coração está mais fraco. Este vício, como tantos outros, tem mecanismos para gerar dependência e impedir o escape do viciado. Amor, que é o remédio para tantos males, não circula mais; é um item esquecido em meio a tantos conceitos e a tantas buscas que maqueiam a grande falta.

É isso. O amor não marca o rítmo mais de nossas vidas. Não é mais visto como a norma maior, que faz agregar e não separar, produz aproximação e cuidado, não discriminação e ataques irônicos. E se não há amor, o vício de disseminar más impressões domina por completo. Mas, onde está o cristianismo se não há amor? Se olhamos uma possível e talvez inverídica falha não como oportunidade para auxílio, mas sim para humilhações e ironias? Onde está o espelho para revelar nossa mediocridade se nos emaranharmos em verborragias maléficas e nos esquecermos do Verbo vivo que se encarnou para nos amar e ensinar o amor? Nos esquecemos do espelho, chamado Palavra de Deus. Deixamo-lo empoeirado, longe de nossas vistas, e o trocamos por um joguinho mesquinho de amizades e desafetos, tornando-nos em um clubinho social desengonçado, em vez de nos dispormos a sermos feitos Igreja e Corpo pelo Espírito que nos é dado. Somos cristãos?

Somos “cristãos”, sem dúvida, pois esse título hoje se recebe por opção religiosa. Mas não seremos de Cristo se o amor não for nossa razão e nosso objetivo. Quem não ama, não conhece a Deus. (Não sou eu quem o diz.) Conhece, sim, as mazelas de uma alma entregue a si mesma, contra o próximo e contra o Eterno, ainda que suas obras o iludam do contrário.

Que a Graça nos alcance, e ilumine nossas densas trevas. Que o amor maior de Cristo, demonstrado na cruz, seja forte e potente, para nos resgatar de nossas vidinhas simuladas. Que o convite para receber do corpo e do sangue de Cristo na Santa Ceia nos seja muito mais atrativo do que os milhares de convites para devorar a imagem alheia, como conviva de uma conversa infrutífera. Essa é minha oração, para mim e meus irmãos. Porque eu, eu só nEle confio, já que em mim mesmo não há nada que me conduza para o bom uso das palavras. Eu só nEle espero. E espero que nos converta todos os dias ao seu amor e à sua sabedoria.

Termino com versos maravilhosos e sugiro a música de que os tirei. Para composições assim serve nossa habilidade de usar a voz articulada, não para tantas outras coisinhas que só mencionar seria vergonhoso.

“Se eu não tiver amor, de nada valerá. Eu viverei só pra saber o que é viver em vão!”
Stênio Marcius
 

Um abraço fraterno, de um alguém que tenta crescer junto, tropeçando e se levantando (e, eventualmente, esperando receber algum apoio quando o terreno está irregular, e nunca empurrões que terminem de derrubar).
C. M. R.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O mundo virtual e suas vitrines, os seres e o Ser



O quadro atual

Descobrimos uma maneira de ser mais, de ampliar o âmbito de ação e a extensão da existência. Éramos em um lugarejo, em uma vila, talvez em uma cidade. Conhecíamos algumas pessoas, amigos e família. Com eles, compartilhávamos a curta vida. Nos olhos deles, víamos refletido o nosso ser. Era pouco para seres tão capazes.

Fizemo-nos virtuais. Divulgamo-nos na rede e, em rede, nos fizemos conhecidos. Criamos vitrines para a apresentação de nós mesmos como produtos à venda. Dispusemo-nos em oferta atrativa. Claro, ninguém coloca na vitrine de uma loja as ofertas menos interessantes. Ninguém coloca nas vitrines virtuais dados mais monótonos do cotidiano, mas somente os pontos de interesse que caracterizam uma vida intensa, feliz, animada, ou uma espiritualidade robusta e ascética. Jusfiticamos assim o nosso direito de exisitir sobre a Terra. Que todos saibam que merecemos viver, afinal, somos tão interessantes ou justos. Assim, na verdade, nos inventamos em palavras e imagens selecionadas e, sem perceber, nos coisificamos.

Inflados pela possibilidade de sermos expandidos, damos eco ao ego e nos deleitamos em nós mesmos.

O homem do deserto

Mas vem a memória de certo João a incomodar. No deserto, vestido de peles e comendo gafanhoto. Ele não ia às cidades buscar a fama. Eram os outros que se achegavam a ele. Eles o buscavam no nada, não na vitrine. Ele não havia montado vitrine alguma. Na poeira, gritava uma mensagem dura, mas que comunicava uma esperança. Apontava, mas não para suas próprias qualidades, atividades e intensidades. Havia um que era maior que ele: o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. E era esse justamente que devia se evidenciar. O homem do deserto, por sua vez, se fazia menor. Não alardeava a si mesmo, não expandia seu ser, mas apontava para o Ser, que se fazia também pequeno, humano, para alcançar os humanos.

João Batista não adornou sua face para fazê-la conhecida, elogiada, bem afamada. Não. Deu-a a tapa. E a teve levada sobre uma bandeja, para que a maravilhosa vinda do Cristo fosse conhecida.

O dilema: o Ser e os seres

Expandir o ser, estar numa pequena moradia e afetar o mundo. Isso é muito atrativo. Contudo, chega a nos enganar, pois nos esquecemos de que, no fundo, não somos. Apenas existimos a partir dAquele que realmente é, do único e verdadeiro Ser. Esforçando-nos para ser mais, nos esquecemos da nulidade de nosso ser, iludindo-nos com falsas potencialidades. E nos esquecemos do Único que sustenta o significado da vida. Fazemo-nos maiores na ilusão de nossas negociações de fama. Mas, na verdade das coisas, tudo isso é vazio, e está longe da Verdade.

Olho e recolho-me, não à minha insignificância, mas no significado que me doa o Autor. É preciso rever conceitos, motivações, valores e ações, com sinceridade, paz e auxílio do Consolador.

Ao Eterno, a minha existência, que Nele mesmo se sutenta.


C. M. R., pois Cristo Me Redimiu





segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Ideal libertário: variações



O ideal na bandeira de Minas
"Liberdade ainda que tardia"


O ideal da maioria dos ricos deste mundo
"Liberdade ainda que só minha"


O ideal da maioria dos pobres deste mundo
"Liberdade ainda que Sexta-feira de tardinha"


O ideal do Criador deste mundo
"E vocês conhecerão a verdade, e a verdade os libertará"



O responsável por este troço sou eu, Cesar M. R.


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

"Caiu na rotina!" Afinal, precisa acontecer isso?


A rotina é o temor de muitas pessoas. Não ter rotina, no entanto, talvez não seja uma alternativa viável. Ela é inevitável. Podemos detestá-la, mas precisamos dela. Uma empresa sem rotina não funciona, pois um funcionário não saberia os passos a seguir para cumprir uma determinada tarefa. Na infância, a rotina possiblilita um desenvolvimento um pouco mais livre do estresse. Na cozinha, só mesmo um chef com ingredientes abundantes e sem limite orçamentário poderia se dar ao luxo de não ser rotineiro jamais. No casamento... Bem, aí vem o contexto em que mais escutamos a frase: "Ah, é que caiu na rotina".

Muitos usam essa frase para justificar o fim ou a insatisfação com o relacionamento. A culpa deixa de estar nas pessoas e passa à Rotina, que se personifica, como um monstro que se deveria ter evitado. Evitar a rotina seria complicado. Sem rotina não se vive normalmente, como disse. Mas o que se pode evitar é "cair" na rotina. "Cair" dá a ideia de que a coisa é irrefletida, uma fatalidade. "Cair" é mais problema que a rotina em si. Assim, minha proposta não é aniquilar a rotina, mas a queda. Em vez de viver sem perceber o que acontece até que se caia em lugar indesejado, prefiro que se contrua uma rotina aprazível, pensada e observada.

Em vez de cair, construir. E construir possibilita planejar, observar problemas, pontos positivos e negativos. Construir uma rotina em casal, em família, é uma ação solidária de reconhecimento das necessidades e interesses do outro. E a própria rotina construída pode incluir o dever de se avaliar o que se contrói ao longo do tempo: "Essa rotina está boa para você?", "O que podemos fazer para melhorar?". E, claro, a diversão deve ter seu lugar em uma rotina saudável. E divertir tem tudo a ver com o "diverso", o "diferente". Isso significa que, mesmo na rotina, haverá espaço para variações e surpresas, em momentos propícios para isso.

Não estou pensando em coisas radicais, como por exemplo: "Querida, sabe aquele dinheiro da poupança que estamos juntando faz 3 anos? Pois é, tirei e comprei um pacote para as Ilhas Fiji? Não é o máximo?". Como disse antes, a rotina e também suas diversões devem ser conversadas solidariamente, e em consonância com as finanças. Claro, a rotina tem que ser compatível com a situação financeira da família (se não for assim, a dor de cabeça entrará para a rotina já já!). Uma ida a um parque, um piquenique, um passeio a uma cidade próxima, um jantar diferente, um agrado fora de data especial, um elogio criativo, um paparico inesperado, um beijo no meio do filme, uma música nova, um prato nunca antes preparado...

E, agora, eu fujo da rotina do texto, que já está se transformando em aconselhamento matrimonial, e vou pra comida: Quantos ingredientes você experimentou pela primeira na cozinha  vez neste ano? Seu prato é quase sempre igual, de segunda a segunda? A rotina do sabor também pode incluir o diverso. Este ano, para mim, foi especial por causa dos fungos. Preparei macarrão com shitake, comi lasanha de cogumelos silvestres com espinafre em um almoço especial à beira de um rio calmo, e tive cogumelos com ovos no café da manhã durante alguns dias. Também, me diverti com grão de bico e bacalhau, que antes não tinha usado na cozinha. E comi, pela primeira vez, mussaka, um prato grego que há muito queria conhecer. Ah, e experimentei quase dez tipos de queijos novos para meu paladar. Isso fez minha diversão nos momentos rotineiros das refeições. E você? Não inaugurou nenhum ingrediente ainda este ano? Tente! Ainda há tempo! E aproveite para divertir alguma pessoa que constrói a rotina com você! Prepare um almoço ou jantar especial para ele/ela.

E, claro, há algo de veras importante: Que o amor seja o tom de nossa rotina! Que tudo seja feito com amor ao próximo, para a glória do Criador, que renova rotineiramente suas misericórdias sobre nós, que, rotineiramente, insistimos em cometer erros semelhantes (como por exemplo, rotineiramente, não ligar para o que o semelhante pensa da rotina que insistimos em criar de modo egoísta).

Um abraço fraterno,

Cesar


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A verdade dividida: Não me esqueci do Drummond!


Estimados leitores e visitantes que, perdidos nos caminhos da virtualidade, acabaram esbarrando nesta cantina capenga, 

No dia 31 de Outubro, comemora-se o dia do nascimento de Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas brasileiros (e que não podia deixar de ser mineiro). No dia mesmo, não quis me manifestar sobre a comemoração, pois não queria competição com o dia da Reforma, que, embora menos poético, ecoa de forma mais intensa em mim nesses tempos. Agora, passados uns dias, esbarrei com um livro do poeta de ferro ao organizar umas caixas; resolvi lembrar dele por escrito, copiando aqui uma de suas poesias, uma que pode gerar ou ilustrar discussões teológicas interessantes. E isso é bom, pois falta-me inspiração para escrever algo de mim mesmo. Lá vai então:


A VERDADE DIVIDIDA

A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.